- Priscilla Pereira
- há 1 dia
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A sobrecarga feminina: quando dar conta de tudo cobra um preço invisível
Há um cansaço que não aparece nos exames, não se resolve com uma noite de sono e, muitas vezes, nem encontra palavras fáceis para ser nomeado. Ele se instala aos poucos, no corpo e na alma, e costuma atingir de forma particular muitas mulheres. Um cansaço que nasce da sensação persistente de que é preciso dar conta de tudo, do trabalho, da casa, dos filhos, das relações, das emoções alheias e das próprias. E, ainda assim, sentir que nunca é suficiente.
Na clínica, esse tema atravessa gerações. Mulheres competentes, sensíveis, responsáveis, que chegam dizendo: “Eu não posso parar”, “Se eu não fizer, ninguém faz”, “Eu até descanso, mas a culpa não deixa aproveitar”. A sobrecarga feminina não é apenas uma questão de agenda cheia; ela é, sobretudo, uma experiência emocional profunda, sustentada por expectativas sociais, históricas e internas.
Vivemos em um tempo que valoriza produtividade, desempenho e eficiência. Para muitas mulheres, esse discurso se soma a uma herança cultural que associa valor pessoal ao cuidado com o outro. Ser boa profissional, boa mãe, boa filha, boa parceira, boa amiga, tudo ao mesmo tempo, sem falhar.
O problema é que, nesse movimento, algo fundamental vai sendo deixado de lado: o espaço para existir de forma espontânea. Quando a vida se organiza apenas a partir de deveres, a espontaneidade fica sufocada. A mulher passa a funcionar muito mais a partir do que é esperado dela, adaptando-se às demandas externas, do que sendo verdadeira consigo, sendo viva e criativa.
Esse funcionamento pode até “dar certo” por um tempo. Mas o custo aparece: ansiedade constante, irritabilidade, sensação de vazio, choro contido, dificuldade de descanso genuíno e uma exaustão que não se explica apenas pelo excesso de tarefas.
Culpa: o afeto que sustenta a sobrecarga
A culpa ocupa um lugar central nessa experiência. Culpa por trabalhar demais. Culpa por trabalhar de menos. Culpa por não estar mais presente. Culpa por querer estar sozinha. Culpa por desejar algo diferente daquilo que se espera.
Do ponto de vista winnicottiano, a culpa está ligada à capacidade de se preocupar com o outro, algo saudável e humano. No entanto, quando essa preocupação se torna excessiva e não encontra limites, ela deixa de proteger os vínculos e passa a adoecer quem cuida. A mulher sente que descansar é falhar, que pedir ajuda é sinal de fraqueza, que priorizar a si mesma é egoísmo.
Assim, o sofrimento não vem apenas do excesso, mas da impossibilidade subjetiva de parar.
A sobrecarga emocional invariavelmente encontra o corpo: dores difusas, enxaquecas, alterações no sono, no apetite, na libido, crises de ansiedade. O corpo passa a falar aquilo que não teve espaço psíquico para ser elaborado.
Winnicott nos lembra da importância de um ambiente suficientemente bom, um contexto que sustente, acolha e permita falhas. Muitas mulheres, no entanto, tornaram-se para todos um ambiente suficientemente bom, sem nunca terem sido cuidadas da mesma forma. Faltou acolhimento. Faltou amparo. Faltou alguém que dissesse: “Você não precisa dar conta de tudo sozinha.”
Caminhos possíveis: do excesso à presença
Cuidar da saúde mental feminina não passa por fórmulas rápidas ou listas de produtividade emocional. Passa, antes, por movimentos internos delicados:
Reconhecer limites sem vivê-los como fracasso
Questionar expectativas internalizadas que não são, de fato, próprias
Criar pequenos espaços de respiro e autenticidade no cotidiano
Aprender a pedir ajuda e a aceitar quando ela vem
Diferenciar responsabilidade de sobrecarga
Na psicoterapia, esse processo acontece no ritmo possível de cada mulher. Um espaço onde não é preciso performar, explicar demais ou sustentar tudo. Um espaço onde o self pode, pouco a pouco, reaparecer.
Talvez a pergunta mais importante não seja “como dar conta de tudo?”, mas “do que posso, legitimamente, abrir mão para continuar sendo eu?”. Sustentar essa pergunta já é, por si só, um gesto de cuidado.
Se você se reconhece nesse texto, saiba: não há algo de errado com você. Há, sim, um excesso de exigências, externas e internas, que merecem ser olhadas com delicadeza. A psicoterapia pode ser um caminho para reconstruir essa relação consigo mesma, com menos culpa e mais presença.
Porque ninguém deveria precisar se esgotar para merecer existir.

