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  • Foto do escritor: Priscilla Pereira
    Priscilla Pereira
  • 2 de mar.
  • 4 min de leitura
Senhora e jovem trabalhando

Geração “fraca” ou geração exausta? O que o burnout revela sobre a relação das gerações com o trabalho


“Na minha época não existia burnout.”

“Essa geração não gosta de trabalhar.”


Escuto essas frases no consultório, principalmente de pacientes 60+. E, curiosamente, são muitas vezes essas mesmas pessoas que, ao se aproximarem da aposentadoria, entram em sofrimento profundo. Já ouvi de um paciente com mais de 70 anos: “Se eu parar de trabalhar, não sobra nada de mim.”


Entre a acusação de fragilidade dirigida aos mais jovens e o medo de desaparecer vivido pelos mais velhos, há algo que merece ser compreendido com mais delicadeza. Talvez o ponto não seja qual geração é mais forte. Talvez a pergunta seja: como cada geração aprendeu a existir através do trabalho?



O burnout não é fraqueza, é sintoma de um tempo


A Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho não gerenciado com sucesso (WHO, 2019). A pesquisa clássica de Christina Maslach descreve três dimensões principais: exaustão emocional, despersonalização e redução da eficácia profissional.


Mas limitar o burnout a um diagnóstico técnico é pouco. Ele é também um fenômeno cultural.


As gerações que hoje têm 60, 70 anos foram socializadas em uma lógica de dever. Trabalhar era sustentar, cumprir, honrar compromissos. A identidade se estruturava na função exercida. O valor vinha da utilidade.


Já os jovens adultos cresceram sob uma lógica diferente: a do desempenho ilimitado. Não basta trabalhar, é preciso se destacar, inovar, crescer, performar. Não basta cumprir, é preciso amar o que faz e provar isso com resultados.


Não é que antes não houvesse sofrimento. Ele apenas tinha outra forma.



A geração atual não quer trabalhar ou não quer adoecer?


O filósofo Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, descreve a transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. Antes, o sujeito era marcado pelo “você deve”. Hoje, ele vive sob o “você pode”. Parece libertador. Mas não é.


Na sociedade do desempenho, o indivíduo torna-se empreendedor de si mesmo. Ele é patrão e empregado ao mesmo tempo. Explora e é explorado por si próprio. O fracasso deixa de ser atribuído às condições externas e passa a ser vivido como falha pessoal.


Se não dou conta, a culpa é minha. Se estou exausto, é porque não fui forte o suficiente. Se não cresço, é porque não me esforcei o bastante.


Han afirma que as patologias do nosso tempo são neuronais: depressão, ansiedade, burnout. Não vivemos mais sob o regime da repressão, mas da autoexploração.


Nesse cenário, quando um jovem diz que não aguenta mais, talvez ele não esteja rejeitando o trabalho. Talvez esteja recusando a lógica da exaustão permanente.

A pergunta que surge: “a que custo?”. E isso não é sinal de fraqueza. É sinal de limite.



Quando o trabalho vira identidade: a dor da aposentadoria


Se, por um lado, jovens colapsam sob a pressão do desempenho, por outro, muitos idosos sofrem ao perder a função.


Em pacientes 60+, observo frequentemente uma identidade organizada em torno do servir. O valor pessoal foi construído na capacidade de ser útil. Trabalhar significava existir socialmente.


A aposentadoria, então, pode ser vivida como ameaça narcísica profunda. Não é apenas deixar um cargo. É deixar o lugar que sustentava o sentimento de continuidade de ser.

Na perspectiva de Donald Winnicott, o self saudável depende de experiências que permitam ao indivíduo sentir que existe de maneira integrada, contínua e autêntica. Quando a identidade se apoia excessivamente no fazer, seja pelo dever de servir ou pela necessidade de performar, o risco é o empobrecimento do ser.


Entre o servir e o performar: onde está o espaço para existir?


Aqui está o ponto central dessa reflexão.


O sujeito que só existe quando serve


Esse sujeito organiza sua identidade na lógica do dever e da utilidade. Ele aprendeu que seu valor está em atender demandas externas, sustentar a família, cumprir responsabilidades. O reconhecimento vem da necessidade que os outros têm dele.


A pergunta silenciosa é: “Se eu não for necessário, eu continuo existindo?”


O sofrimento aparece quando a função desaparece, como na aposentadoria, na perda do cargo ou na diminuição do ritmo.



O sujeito que só existe quando performa


Já o sujeito da sociedade do desempenho precisa provar constantemente seu valor. Não basta ser útil, é preciso ser excepcional. Crescer, inovar, superar metas, manter-se relevante.


A pergunta aqui é outra:“Se eu não estiver performando bem, eu ainda tenho valor?”

O sofrimento surge quando o desempenho falha ou quando a exigência nunca termina.


A diferença essencial


  • Servir está ligado ao dever e à estabilidade da função.

  • Performar está ligado ao desempenho e à instabilidade da comparação constante.


No primeiro caso, o risco é desaparecer quando a função termina. No segundo, é nunca ser suficiente.


Ambos compartilham algo profundo: a dificuldade de sustentar um eu que exista independentemente da produtividade.


O que o burnout realmente revela


Talvez o burnout não seja apenas um excesso de trabalho. Talvez seja o colapso de um modelo de identidade.


Quando o trabalho ocupa todo o espaço psíquico, não resta área para o brincar. Conceito central em Winnicott. Brincar, aqui, não é infantilidade. É a capacidade de experimentar o mundo com espontaneidade, criatividade e autenticidade.


Sem essa dimensão, o sujeito torna-se reativo às demandas externas, seja para servir, seja para performar.


E sem espaço para existir, o corpo adoece.


Existe um outro caminho?


A questão não é abandonar o trabalho. Nem romantizar o descanso.

A questão é construir uma relação com o trabalho que não nos consuma nem nos defina por inteiro.


Isso significa poder:

  • Trabalhar sem se confundir totalmente com o trabalho

  • Descansar sem culpa

  • Errar sem colapsar

  • Aposentar-se sem sentir que desapareceu

  • Diminuir o ritmo sem se sentir fracassado


Talvez a verdadeira maturidade emocional esteja em recuperar algo anterior ao servir e ao performar: a possibilidade de simplesmente ser.


E, para muitos, esse caminho começa na psicoterapia, um espaço onde o valor não está na produtividade, mas na experiência de existir.


Se você se reconhece em algum desses extremos, seja na exaustão do desempenho, seja no medo de deixar de ser necessário, talvez não seja fraqueza. Talvez seja um convite a reconstruir sua relação com o trabalho e, mais profundamente, com você mesmo.



 
 
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