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  • Foto do escritor: Priscilla Pereira
    Priscilla Pereira
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
mulher com rosto nos cadernos

Burnout: quando a exaustão deixa de ser cansaço e vira perda de si

Há um tipo de cansaço que não melhora com uma boa noite de sono. Ele não se resolve com férias. Nem com um “final de semana para desligar”.


É um cansaço que invade a identidade.


Você acorda já cansada. Trabalha o dia inteiro. Entrega. Resolve. Responde. Sustenta. E, ainda assim, termina o dia com a sensação de que está sempre devendo algo ao mundo, à empresa, às pessoas… e principalmente a si mesma.

Isso não é apenas estresse. Pode ser burnout.


O que é burnout? E por que ele vai além do excesso de trabalho?


O burnout foi descrito inicialmente por Herbert Freudenberger (1974) e aprofundado por Christina Maslach, que o definiu como uma síndrome psicológica associada ao estresse crônico no trabalho, marcada por exaustão emocional, distanciamento afetivo e sensação de ineficácia.


Desde 2019, a Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout na CID-11 como um fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico não administrado com sucesso.

Mas a definição técnica não captura tudo.


O burnout não é apenas trabalhar demais. É trabalhar demais enquanto se perde o sentido do que se faz. É continuar funcionando quando, por dentro, algo já entrou em colapso.


Os sintomas de burnout que quase ninguém percebe no início


O burnout não começa com um desmaio. Ele começa com pequenas rachaduras.

Talvez você perceba:


  • cansaço constante e falta de energia, mesmo após descanso

  • dificuldade de concentração

  • irritabilidade ou impaciência que não eram habituais

  • insônia ou sono não reparador

  • sensação de estar “no automático”

  • vontade de se afastar das pessoas ou do trabalho

  • sentimento persistente de incompetência, apesar das entregas


Mas há um sinal mais profundo: a perda da espontaneidade.

Você já não se reconhece no que faz. Cumpre tarefas, mas não se sente presente nelas.

Na clínica, escuto com frequência: “Eu continuo as coisas… mas não sei até quando.”


Um olhar winnicottiano: quando o falso self sustenta o desempenho


Na perspectiva de Donald Winnicott, o sofrimento psíquico muitas vezes surge quando a adaptação ao ambiente se torna excessiva.


Quando a pessoa precisa se moldar continuamente às exigências externas: metas, prazos, expectativas, reconhecimento. Pode começar a funcionar a partir do que Winnicott chamou de falso self: uma organização psíquica que protege, entrega e mantém o desempenho, mas à custa da vitalidade interna.


O burnout pode ser compreendido como o esgotamento dessa adaptação.


Durante muito tempo, a pessoa sustenta:

  • perfeccionismo

  • hiper-responsabilidade

  • dificuldade de delegar

  • medo de falhar

  • necessidade intensa de validação


Até que algo cede. E quando cede, não é apenas o corpo que para, é o sentido.


Burnout, saúde mental e avaliação psicológica: a importância do diagnóstico correto


Nem todo cansaço é burnout. Nem todo desânimo é depressão. Nem toda ansiedade no trabalho é “frescura”.

A avaliação psicológica é fundamental para diferenciar estresse pontual, transtornos de ansiedade, depressão e síndrome de burnout.


Na minha prática clínica, utilizo a Escala Brasileira de Burnout (EBB), instrumento aprovado pelo Conselho Federal de Psicologia, que permite uma avaliação estruturada dos níveis de exaustão, distanciamento e comprometimento emocional relacionados ao contexto de trabalho.


Isso é importante porque:

  • traz clareza

  • reduz a culpa

  • fundamenta intervenções terapêuticas

  • ajuda a construir estratégias realistas de cuidado


Dar nome ao que acontece é o primeiro passo para transformar.


Como a psicoterapia ajuda no tratamento do burnout


O tratamento do burnout não é apenas aprender técnicas de produtividade ou organização do tempo. É um trabalho profundo de reconexão.


Na psicoterapia, trabalhamos:


1. Reconhecimento dos limites emocionais

Aprender a diferenciar responsabilidade de sobrecarga.

2. Reconfiguração da relação com o trabalho

O que esse trabalho representa na sua história? Reconhecimento? Segurança? Prova de valor?

3. Construção de limites sustentáveis

Dizer “não” sem vivenciar culpa devastadora.

4. Recuperação da vitalidade e do desejo

Resgatar interesses, pausas, criatividade e descanso genuíno.

5. Integração entre desempenho e identidade

Você é maior do que sua produtividade. A terapia oferece algo que muitas pessoas com burnout não têm há muito tempo: um espaço onde não é preciso performar.


A pergunta que fica


Se você parar por um instante e se perguntar: “Eu estou cansada… ou estou me perdendo de mim?”. Talvez a resposta traga um incômodo mas também uma possibilidade.


O burnout não é sinal de fraqueza. É, muitas vezes, o sinal de que você foi forte por tempo demais sem sustentação suficiente. Cuidar da saúde mental não é desistir do trabalho. É aprender a trabalhar sem se abandonar.


Se você sente que está no limite, procurar ajuda psicológica pode ser o começo de uma mudança concreta, com avaliação adequada, escuta qualificada e um espaço seguro para reconstruir sua relação com o trabalho e consigo mesma.



 
 
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