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  • Foto do escritor: Priscilla Pereira
    Priscilla Pereira
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
cachorro branco

Quando se adaptar demais começa a fazer mal: o custo de passar a vida correspondendo às expectativas

Algumas pessoas parecem ter uma sensibilidade especial para perceber o ambiente. Notam rapidamente quando alguém está incomodado, entendem quando é melhor não insistir, sabem a hora de ajudar e, muitas vezes, percebem aquilo de que o outro precisa antes mesmo que ele peça. Costumam ser vistas como maduras, responsáveis, compreensivas e fáceis de conviver.


Saber considerar o outro e se adaptar às diferentes situações é parte importante da vida. O problema começa quando essa capacidade ocupa tanto espaço que a pessoa passa a ter muita facilidade para perceber o que acontece ao seu redor, mas pouca intimidade com aquilo que acontece dentro dela.


Isso pode aparecer na dificuldade de dizer não mesmo estando cansada, na culpa depois de frustrar alguém ou no hábito de aceitar uma situação e só depois perceber o quanto aquilo incomodou. Aos poucos, a pergunta “o que eu quero?” vai ficando menos presente, enquanto outras ganham força: “O que esperam de mim?”, “Será que ele vai ficar chateado?”, “Será que estou sendo egoísta?”.


Quando se adaptar se torna uma forma de proteção


Donald Winnicott estudou profundamente a importância do ambiente para o desenvolvimento emocional. Ao longo da infância, vamos percebendo como as pessoas ao nosso redor respondem às nossas necessidades, sentimentos e formas de expressão.


Não é preciso que alguém diga explicitamente a uma criança que ela deve ser boazinha, responsável ou não incomodar. Ela pode perceber que a mãe já está sobrecarregada e tentar não dar mais trabalho, entender que sua raiva provoca conflitos difíceis ou descobrir que ser prestativa e responsável é uma maneira de receber reconhecimento.


Essas adaptações não são necessariamente um problema. Em determinado momento, podem ter sido importantes para preservar vínculos e encontrar segurança. A questão é que o ambiente muda, mas algumas formas de se relacionar podem permanecer.


A criança que aprendeu a não preocupar ninguém cresce. A menina que evitava conflitos se torna adulta. E aquela atenção constante às necessidades dos outros pode continuar aparecendo no trabalho, na família e nos relacionamentos.


Por fora, muitas vezes, está tudo funcionando. A pessoa trabalha, cuida, resolve problemas e cumpre suas responsabilidades. Por dentro, porém, podem surgir cansaço, irritação, ansiedade ou uma insatisfação difícil de explicar.


Talvez parte desse incômodo venha de ter passado tanto tempo respondendo ao que era necessário que ficou mais difícil reconhecer aquilo que é desejado.


Existe um cansaço que não aparece na agenda


Quando pensamos em sobrecarga, geralmente pensamos na quantidade de tarefas. Mas também existe o esforço de estar permanentemente atento ao ambiente: pensar muito antes de falar para não magoar alguém, perceber o humor de todos, evitar pedir ajuda para não incomodar, aceitar algo e depois se perguntar por que aceitou.


Às vezes, portanto, o esgotamento não vem apenas daquilo que fazemos, mas da quantidade de energia necessária para estar o tempo todo nos ajustando ao que acontece ao redor.


Por isso, fazer diferente não significa simplesmente “aprender a dizer não” ou “se colocar em primeiro lugar”. Para quem encontrou segurança durante muitos anos na capacidade de corresponder, a parte mais difícil pode acontecer justamente depois do limite, quando o outro se frustra, não compreende a decisão ou demonstra descontentamento.


Talvez seja mais importante compreender por que a desaprovação pesa tanto e o que imaginamos que pode acontecer quando deixamos de corresponder às expectativas.


Posso decepcionar alguém e continuar me sentindo querida? Posso precisar de ajuda sem me sentir um peso? Posso fazer uma escolha diferente daquela que esperavam de mim e continuar pertencendo àquela relação?


A psicoterapia pode ajudar a olhar para essas formas de se relacionar com mais cuidado, não para que a pessoa deixe de considerar os outros, mas para que consiga também se incluir nessa equação.


No fundo, não se trata de deixar de se adaptar. Trata-se de poder fazer concessões, cuidar, estar disponível e considerar as necessidades de quem amamos sem precisar desaparecer nesse processo.


Porque considerar o outro faz parte de uma relação. Conseguir continuar se considerando enquanto está com o outro também faz.



 
 
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